Uma Capitu

Eu não sei como eu sou eu, mas queria saber. Eu podia ser calada, calma, nada ansiosa, normal e bem comportadinha. Quem me dera ter sonhos comuns e gostos clássicos, tocar piano e não ser dona de mim. Ter uma belo laço no cabelo e ser uma dessas mulheres que Oscar Wilde definiria como “perfeitamente óbvia”. Deve ser profundamente simples e deleitoso ser assim. Imagino que não há crises existenciais ou críticas, a facilidade dessa forma de existência me encanta! Ser comum deve ser algo absolutamente extraordinário!
Eu queria muito ser a Carolina, mas nasci e me fiz Capitu!

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O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada. Cuidado não a toque, ela é ma pode até te dar um choque! Se porta como louca. Achata bem a boca, parece uma bruxa, um anjo mal. Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam. Eu sou pau pra toda obra, Deus dá asas à minha cobra, minha força não é bruta, não sou freira, nem sou puta. Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda. Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem. Sou rainha do meu tanque, sou pagu indignada no palanque fama de porra-louca, tudo bem, minha mãe é Maria ninguém. O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós. Não sou atriz, modelo, dançarina. Meu buraco é mais em cima, porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda. Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Por isso, não provoque é cor de rosa choque. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim. 

(Duas poetisas misturadas em um caldeirão de mim: Clarice Lispector e Rita Lee em colagens)