Sobre mim

Uma Capitu

O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada. Cuidado não a toque, ela é ma pode até te dar um choque! Se porta como louca. Achata bem a boca, parece uma bruxa, um anjo mal. Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam. Eu sou pau pra toda obra, Deus dá asas à minha cobra, minha força não é bruta, não sou freira, nem sou puta. Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda. Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem. Sou rainha do meu tanque, sou pagu indignada no palanque fama de porra-louca, tudo bem, minha mãe é Maria ninguém. O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós. Não sou atriz, modelo, dançarina. Meu buraco é mais em cima, porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda. Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Por isso, não provoque é cor de rosa choque. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim. (Duas poetisas misturadas em um caldeirão de mim: Clarice Lispector e Rita Lee em colagens)