Brinquedos: arma e Estado de Direito

Passou a viatura com o portão fechado, trancado, e atirou no meu irmão sem perguntar, sem mais nem menos. (Irmã do jovem assassinado)

—Como é que você vai saber que é uma arma de brinquedo? Só vai saber depois. Se fosse uma arma de verdade e ele tivesse atirado contra os policiais? Não tem como saber, à distância, se é arma de brinquedo ou não. Depois que foi saber que era uma arma de brinquedo — comentou o delegado.

Vitor Xavier da Silva, um rapaz negro de dezenove anos, foi assassinado pela Polícia Militar de Santa Catarina, ele portava, dentro do quintal de sua própria casa, uma arma de pressão para praticar tiro com bolinhas de plástico. Foi morto dentro de casa. Dentro de sua própria casa. Ele morreu dentro da residência da família. Negro. Negro. Negro. Negro.

Assassinado na frente da irmã que nos diz que ele sonhava em ser do Exército. Não será, deixou seus sonhos, por causa do esdrúxulo preparo da PM que primeiro atira e depois pergunta ao morto o que ele estava fazendo ali. Uma lógica assassina, tirânica e que não convém ao Estado Democrático de Direito. No Brasil, o princípio de presunção da inocência é tão real quanto a possibilidade do atual Congresso fazer um bom trabalho.

No caso, vemos muitos problemas nacionais: racismo, truculência da PM e armamento. Sim, armamento, o atual presidente conclama “às armas, cidadãos”, dizem seus aliados que quem matam não são as armas, mas as pessoas. Um jovem negro portava um arma de brinquedo e foi fuzilado por policiais. Brinquedo. Brinquedo. Ninguém perguntou ou pediu para ver o registro, atiraram. Já imaginaram como será quando as armas estiverem mais disponíveis no mercado? Se nossa polícia age assim, vocês imaginam como nossos “justiceiros alados” irão agir? Em quantos não atirarão porque terão certeza que é um bandido? Nessa lógica inocente de que “armas não matam”, parece ficar esquecida que ela potencializam a letalidade. Dom Quixote diz que odiava o homem que inventou as armas de pólvora, pois ele era um covarde que matou a nobreza do duelo. Não chego a tanto, mas concordo que há uma covardia intrínseca ao uso de armas em determinadas situações. É covardia usá-la como se balas fossem munição da justiça, não são.

Assustadoramente, os policiais envolvidos não foram afastados e o caso está sendo tratado como “ameaça e confronto”. Sim, pasmém. Um confronto entre um jovem com uma arma de brinquedo dentro de casa versus dois policiais armados soa um absurdo? Eu diria que há um brinquedo do outro lado: o Estado. Afinal, o delegado que trata do caso justificou que a arma podia ser de verdade. Por isso, fizeram certo atirar e matar? Brincadeira é essa declaração. Brincadeira é a ausência de política de segurança pública no Brasil. Brincadeira é a inversão do “inocente até que se prova o contrário”. Brincadeira é o que estão fazendo com o Estado de Direito. Brincadeira é a preparação da Polícia Militar Brasileira.

Vítor está morto, isso não é parte da brincadeira. Uma família perdeu um filho dentro de sua própria residência. Mais uma mãe enterrou um filho assassinado por homens que para executar as demandas dos Fariseus condenam e matam a sangue frio. Outra sexta feira da paixão em um país que leva as Igrejas ditas cristãs até a política, mas que não levam Jesus Cristo e sua mensagem a lugar algum.

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