Humano

mordi a maçã. eu faria novamente. cada erro. cada acerto. eu pisaria nas mesmas armadilhas e subiria as mesmas escadas. eu navegaria com a mesma tripulação. eu cederia aos encantos das sereias. lutaria as mesmas guerras. eu desafiaria os deuses. mais uma vez, eu irritaria Poseidon, mas chegaria em ítaca. contaria com a ajuda de Atenas. eu iria aos confins por Helena. também receberia flecha de Páris. Eu, se fosse Davi, enfrentaria Golias. Eu, se fosse Golias, enfrentaria Davi.

Beberia cicuta. Tentaria usurpar o poder e seria condenado graças à Cícero. Seria o maior conquistador de Roma e morreria apunhalado por um filho. Amaria Júlio Cezar e Marco Antônio. Seria Augusto e viveria como o Deus de um Império. Seria amoral, moral e imoral. Mataria Cristo. Morreria por Cristo. Eu pagaria meu dízimo e combateria os mouros. Rezaria voltado para Meca e mataria por ela. Queimaria na fogueira pela França. Cederia por Anna Bolena, mas também a condenaria forca. Mataria pela Inglaterra e a teria como meu grande amor. Mandaria matar minha prima Maria Stuart. Diria novamente que “Paris, bem vale um missa”, ao final, ousaria sugerir que dessem ao povo brioche.  Uma vez mais, eu tomaria a bastilha, instauraria o terror. Mandaria que Guilhotinassem. Seria guilhotinado. Tomaria a Coroa das mãos do Papa. Amaria Josefina. Desafiaria a Rússia e terminaria no exílio. Mesmo que ela não funcionasse novamente, eu escreveria a Carta da Jamaica. Novamente, viria ao Brasil e me casaria com Carlos Prestes, para morrer na Alemanha. Atravessaria aquela ponte em Selma, mesmo que ela me custasse a vida.

Teria fé na Deusa Anciã, em Zeus, em Abrão, em Davi, em Moisés, em Jesus, em Maomé. Daria mais um vez a minha vida por um Deus ou por vários. Condenaria pela Igreja. Seria condenado pela Igreja. Prepararia aquelas 95 teses. Serviria à Inquisição. Seria herege. Escutaria Sócrates. Sustentaria as ideias de Sêneca. Seguiria Santo Agostinho, Voltaire e Rousseau. Conclamaria Kant, Hegel e Schopenhauer. Concordaria primeiro com Hobbes, depois com Locke e, mais adiante, com Marx. Diria que “deus está morto”. Mais uma vez, eu escolheria o existencialismo de Sartre. Veria o absurdismo de Camus. Seria Ateu. Restabeleceria todas as fés.


Seguiria humana.

Sempre humama.

No ciclo do eterno retorno humano de cair em armadilhas, desfrutar de glórias, ser crente e descrente, ser juiz e réu, ser algoz e vítima, ser vencedor e perdedor.

Uma certeza incerta de estar diante do mundo como espectador e agente.

Entre o Bem e o Mal de verdades subjetivas.

Nunca saber o trecho final, porque não há desfecho.

Ser indivíduo e coletivo.

Amar e odiar, sentir.

Aceitar e relutar.

Sonhar e fracassar.

Sonhar novamente e poder vencer.

Lutar contra o Destino, aceitar o Destino e não ter destino.

Entre o anjo e o demônio, escolher, decidir.

Ousar o pecado da existência e a agradecer pelo milagre da vida.

Humanamente… ser. viver. morrer.

E, um dia ainda, ousar adentrar o resto que é silêncio

ou não e ater-se a mais um ciclo de perdição e encontro em mim e no outro humano ao meu lado.

Recomeçar a humanidade que habita dentro de nós. Ser humano, ou seja, ser mais criado pelo ato de morder a maçã, do que ao ser modelado na argila como semelhante a um Deus.


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