Aceitar: até o Amor pode partir

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De todas as perguntas da humanidade, Deus nunca foi a mais complexa, a verdadeira charada é o amor. Matéria dos poetas, dos escritores, dos artistas, da psicologia e da ciência no geral. Recentemente, tornou-se até um tema da química. Seria o amor uma cadeia de reações no organismo? Tristes daqueles que não conseguem ver a falácia da possibilidade da explicação simples do maior dilema humano para além de si.

Leitora voraz dos nobres sábios da alma humana, eu nunca acreditei que o amor fosse menos do que de fato é. O amor até para o trágico Camus era o consolo da existência. Ele foi a matéria de Shakespeare, o príncipe mais existencialista de todos, Hamlet, diz a sua amada para que ela duvide até que o Sol tem calor, mas para que nunca duvide de seu amor. O homem mais famoso de todos, Jesus Cristo, nos falou sobre amor. Os maiores poetas: Camões, Fernando Pessoa e Drummond tentaram entender o amor e sua tragicidade ou felicidade. E desses brilhantes homens, Camões produziu o soneto que, em minha opinião, mais se aproximou da metafísica que é o Amor.

Na minha vida, eu decidi que o amor só poderia vir quando eu tivesse mais de dezoito anos. Afinal, ele exige maturidade e conhecimento de si. Coincidentemente, o amor veio aos meus dezoito anos. No momento em que escutei aquele “eu te amo”, preferi perguntar sobre o que era amor na visão dele do que dar uma resposta automática, pois aquele sentimento não era algo banal. Diante da resposta, eu disse, pela primeira vez no sentido romântico, aquelas três palavras que sempre me encantaram e assustaram. E ao viver o Amor, eu confirmei que os poetas estavam certos e os cientistas errados. Amei de verdade. Também fui amada. No ato de amar descobri mais de mim. Também descobri que há formas de amar muito diferentes. Vivi a certeza de que não escolhemos amar ou não, e, tampouco, somos capazes de voluntariamente parar. Vivi um grande amor, um belo amor e sou grata por ele. Como aquela Raposa, aprendi que o essencial é invisível aos olhos e só se vê bem com o coração. E que o que devemos cuidar bem de nossas rosas, pois ainda que existam outras como elas, o tempo que gastamos com a nossa, a fez única e especial. Amei e vivi meu namoro com toda a intensidade e entrega de uma fã do “Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Bronte.

Agora, com a experiência do fato em si, com o fim do meu relacionamento, eu não vi o amor ir embora. Entendam, ser clichê nunca combinou bem comigo. Decidi entender, até no fim, o que era o amor antes e o que era o amor depois. Vivi meu término da maneira mais estranha que vocês podem imaginar, no entanto, da mais saudável. Respeitei o amor. E nada foi tão lindo e maduro quanto isso. Sofri, sorri e vivi cada dia de acordo com o que realmente sentia. Neguei-me seguir os manuais batidos de como devemos ser. Ao contrário, fui livre e segui aconselhada por Gabo, Goethe e Sócrates. Acreditem, até o amor pode ser dialético. Na balança do banal versus o absoluto, devemos discutir o “timing”. Eu não o amava menos, mas o nosso momento não era propício ao amar. Ele concordava com isso e nossas demandas, embora diferentes, mostravam como o momento é o guia do destino.

A minha receita de como terminar uma relação de praticamente seis anos que chega ao fim ainda com amor? Amando até quando o amor decidir partir. Empiricamente, descobri mais sobre o amor ao tentar calá-lo do que enquanto ele falava. Contestei com alguns se ele partiria ou seria eterno. Sempre torci para que ele fosse eterno. Tal como Bauman, eu tinha certeza que o amor é um evento da magnitude da morte, só pode ocorrer uma vez. Morre-se uma vez, ama-se uma vez. Quaisquer outras experiências de quase não são reais como o evento em si. E citando amor líquido, concordei: “Nem no amor nem na morte pode-se penetrar duas vezes – menos ainda que no rio de Heráclito. Eles são, na verdade, suas próprias cabeças e seus próprios rabos, dispensando e descartando todos os outros. (…) Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer. E não se pode aprender a arte ilusória – inexistente, embora ardentemente desejada – de evitar suas garras e ficar fora de seu caminho.”Hoje, ainda não tenho a resposta para se Bauman está errado ou certo sobre só amarmos de verdade uma vez e só o tempo poderá me responder essa questão.

Traindo Bauman, vivi as relações banais enunciadas no amor líquido. Aos moldes da dialética hegeliana, eu confrontei o amor em mim com o desejo pela liquidez das relações no século XXI. Posso ser sincera? É incomparável o quão genuíno o amor é, o quão mais raro e belo. No entanto, o quão mais perigoso, cortante e trabalhoso também é. Se compensa? Vou com o negativismo de Camus: o Amor é o consolo da existência. É o que há de mais sagrado. Porém, ele cobra seu custo. Embora, não possamos escolher quando amamos, podemos ceder ou não ao ato de amar.  

Não sei se o amor me machucou, mas, sem dúvidas, o ser amado o fez. Houve momentos em que eu quis tomar o amor de volta e guardá-lo em um cofre. Neste ponto, o sentimento sabe ser irritante ao não obedecer ao que a racionalidade exige. Ironicamente, eu não queria que ele partisse por duas razões. Primeiro, ao olhar pra dentro de mim e ver aquele amor, sua beleza sempre me encantava, se ele partisse, ele teria então sido menos grandioso? Segundo, e se houvesse um próximo amor, ele teria de ser ainda maior do que aquele. Essa simples hipótese me assustava. Entregar mais de mim? Sentir mais ainda por alguém? Conceder novamente com a entrega irrestrita? Ousar aceitar a possibilidade de dar a outrem um poder ainda maior de me fazer feliz ou me ferir?

Sigo, hoje, presa à segunda razão, já que, a primeira foi respondida. O amor não partiu, mas ele transformou-se e, com isso, mudou o redor. Como um bom hóspede, ele escolheu recolher-se e aparecer o mínimo possível. Ele não grita mais, agora, ele chama gentilmente. Nostálgico, ele conta histórias de um passado, rimos juntos. Creio que talvez, como todos os bons hóspedes fazem, ele decida partir. De qualquer forma, ele é bem-vindo para ficar por quanto tempo quiser. Talvez, por ausência de espaço, precisemos mudá-lo para um quarto menor. Ele sabe que tem toda a liberdade para ser na casa que habita em mim, da mesma forma, agora, eu sei que não devo impedi-lo se quiser partir. E mesmo que ela vá embora, nós sempre teremos o tempo que compartilhamos e eu nunca mais verei a vida da mesma forma que eu via antes de conhecer esse tal de Amor.

E no tempo presente, eu sei mais do que nunca responder “o que é o Amor?”. Nisso, Bauman está completamente certo, tal como a morte, só é possível conhecê-lo na experiência do ato. Só há uma resposta para a questão então: amar. Pois tal como para escutar as estrelas, amei para entendê-lo, pois só quem ama é capaz de entender o mais complexo enigma da Esfinge que é a existência humana.

PS: Cena final do filme “Lala Land”. Se você não assistiu, urgentemente, você deveria.

 

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