O choro é livre

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Esse é um texto para a minha gente que, hoje, anda falando de lado e olhando pro chão por causa da vitória do ódio e da incompetência. É um texto para meus amigos que compartilham do meu sofrimento com o desenrolar desta eleição. É um texto para todos aqueles que sentem sua existência ferida pelo discurso que triunfou e vão esquecendo que o viral “ninguém solta a mão de ninguém” é sincero e que, do nosso lado, estaremos unidos para defender o amor, a Democracia e os Direitos Humanos.

Ontem uma mulher gritou o título do texto para mim, e, de fato, ao final da noite, o meu choro fez-se mesmo livre, as toneladas de dor e humanidade saíam de mim como em uma tentativa de que um pouca da angústia se dissiparia ao ser diluída em minhas lágrimas. Livre. Muitos brincaram com os dizeres “O Choro é livre”, mas desconhecem que, longe de ser uma habilidade ou uma escolha, chorar por motivos políticos exige uma humanidade e alteridade que residem apenas naqueles que podem entregar-se ao sentir que não é individual ou egoísta.

São lágrimas salgadas pelo medo por outros e por mim; são lágrimas salgadas pelo ofensivo discurso de exclusão que foi endossado; são lágrimas salgadas pelas incompetências, mentiras e despreparos que foram escolhidos; são lágrimas salgadas pelo risco que minha democracia irá enfrentar; são lágrimas salgadas por ver alguém que elogia o monstruoso Ustra e a Ditadura Militar vencer a eleição para o cargo mais sagrado da República; são lágrimas salgadas por cada fala de Jair Bolsonaro ao longo dos últimos trinta anos; são lágrimas salgadas pela morte de Charleone, Mestre Moa, Marielle e por tantos outros que morreram pelas mãos desse discurso esdrúxulo que, ontem, cantava a vitória.

Não são lágrimas quaisquer, não é um choro de raiva, é um choro de dor, porque, “apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmo e vivemos como os nossos pais”. E apesar das conquistas, o Brasil parece querer retroceder aos tempos de barbárie. Alguns escolheram esse caminho por ignorância, outros por carregarem em si um coração podre e uma alma desprezível. O segundo caso, maquiavelicamente, levou essa eleição aos absurdos e teve como projeto para o Brasil: a intolerância, o ódio, a homofobia, o machismo, o desprezo pelo nordestino, o racismo, o apreço pela violência, a vontade de rasgar os Direitos Humanos, o desejo por uma nova ditadura, o endosso aos policiais que agem como um grupo de extermínio. E estejam certos de que, embora o discurso de vocês tenha obtido vitória nas urnas, ao longo da história, ele sempre foi derrotado pela Resistência daqueles que choram e lutam por dores que muitas vezes não são suas.

Em 1963, o movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos estava encontrando obstáculos devido os impedimentos ao exercício dos votos pelos negros. O Governador do Estado do Alabama, George Wallace, havia conclamado em seu discurso de posse a promessa “segregação hoje, segregação amanhã, segregação sempre!”. Para cumprir isso, abusou de toda a violência disponível. Nesse cenário,  Lee Jackson, um jovem negro e ativista dos Direitos Civis, foi assassinado por policiais na cidade de Selma. Diante dessa situação, o pastor Martin Luther King Jr. decide que suas próximas ações serão na cidade e terão uma marcha de Selma até Montgomery. Esse belo capítulo da história da liberdade e da justiça envolve dois extremos: o do ódio e do amor. Bull Connor, odioso xerife que muito mal cometeu, ficou nas páginas da história como o monstro que era. Reverendo Reeb, amoroso pastor branco que viajou até Selma para lutar por igualdade e foi assassinado por membros da ku klux klan, ficou nas páginas da história como herói. A marcha aconteceu, mais de oito mil pessoas, vindas de diversos lugares dos Estados Unidos, de diferentes credos, raças e opiniões marcharam por cinco dias unidos por ideais nobres e valores que ressaltam o valor de seu caráter. King venceu e Wallace foi derrotado. E um deles para sempre será lembrado com a grandeza que a história resguarda apenas para aqueles que vivem da coragem e do extremismo do amor, aqueles que lutam por justiça e igualdade. Aos covardes, como George Wallace ou membros da ku klux klan, carece a partícula fundamental: a capacidade de por amor e ideal vencerem o medo, ou seja, coragem para morrerem por um mundo mais justo. Armas não dão coragem, elas permitem uma sensação de poder e violência que os covardes adoram para tentar paralisar os corajosos. Felizmente, o amor que se coloca frente uma arma por um ideal de justiça sempre irá inspirar outros a fazerem o mesmo. Luther King foi assassinado, em 1968, por um supremacista branco, mas ele nunca deixará de nos inspirar, sendo assim, suas palavras ecoam como um legado pela eternidade.

É por isso que o melhor consolo para este momento é a lembrança de que estamos do lado certo da história. E que esse lado sempre soube que o “choro é livre” e que ele já derramou muitas lágrimas, mas não derramou sangue. Que este lado já perdeu duras batalhas, mas nunca se indispôs a luta. E venceu. Após dois fracassos para chegar a Montgomery, eles chegaram. Concretizaram seu direito ao voto e  mais: conseguiram eleger um negro para Presidente da República e ele ainda foi dos melhores da história do Estados Unidos. Se estivéssemos em Selma, nosso lado marcharia com King, não teríamos nos silenciado e também não teríamos endossado o lado segregacionista. Seríamos o que somos hoje: a resistência aos poderes que ameaçam a justiça, o amor, liberdade e a igualdade. E que mesmo chorando, irá lutar. 

Então, caros amigos, não abaixem suas cabeças! Podemos não ter vencido esta batalha, mas lutamos do lado certo. Nossas demandas foram honráveis, não desprezíveis. Nossos discursos foram pela Democracia e inclusão, não pelo autoritarismo e a perseguição. Nossos fatos foram a verdade, não a mentira. Nossos guias os maiores intelectuais do mundo, não os meninos do MBL. Nossas armas foram os livros, não a bala. Nossa escolha foi o professor, não o opressor. E, já que, eles escolheram o George Wallace ao invés do Martin Luther King a vergonha é deles, não nossa. Então, parafraseando Chico: apesar de Jair, amanhã há de ser outro dia e ele vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia. Como ele vai se explicar vendo o céu clarear de repente, impunemente? Como ele vai abafar nosso coro a cantar na frente dele? É melhor jair se acostumando, o nosso lado sempre vence, porque o amanhã é nosso.

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