A sabença perdida para um vaso vazio

Os parnasianos venceram, pois, hoje, a importância da forma é maior do que a do conteúdo. Pelo menos, é desta forma para os tradicionais concursos públicos brasileiros. Neles, a estrutura vale mais do que as ideias e criatividade presentes no texto. Os critérios de correção conclamam como fatores essenciais a adequação e o domínio à modalidade padrão da língua portuguesa. Esse pedantismo linguístico é fator de segregação dos que tão longe dessa padronização cresceram e, em um país de tamanha diversidade linguística, é inegável como aqueles critérios se mostram atrelados a uma visão preconceituosa da língua e são uma ação impositiva de uma determinada região do país.

Nessa perspectiva, os puristas-fãs de Olavo Bilac- condenariam a astúcia e coragem de João Guimarães Rosa ou Jorge Amado. O primeiro, amante da sabença sertaneja, revelou-nos a língua como uma mutante, uma força mística que deveria sempre servir ao contar causos. Esse artista com sua oralidade brilhante desbravou a alma do sertanejo -sem valorar a língua padrão culta como sinônimo de sabedoria – e seus conhecimentos e hábitos. Já Jorge Amado politizou um Nordeste pobre em recursos econômicos, mas rico em cultura. O autor baiano, tal como o mineiro, não pontuava em normas gramaticais o berço de qualquer superioridade intelectual, já que a oralidade também foi uma marca sempre presente em sua obra. Diante desse respeito de ambos à variabilidade linguística, não é uma surpresa que eles não tenham escrito sobre um Brasil do Eixo Rio-São Paulo. Esse que parece, constantemente, querer ser o Brasil “certo”e rotular que os demais são anomalias. Seus cavalheiros, os puristas, inspirado em Luís XIV, brandam: Uma só língua! Obedientemente, as folhas de redações aderem à ordem desses tiranos culturais.

Por fim, vencem os Cubas – amantes da aparência – e perdem os Riobaldos – amantes da essência. Os carrascos da cultura matam à diversidade e proclamam uma língua não é do Brasil, mas de um Brasil. Dessa forma, como os portugueses em um processo “civilizatório” tentaram acabar com a cultura dos nativos brasileiros, parecemos, mais de quinhentos anos depois, continuarmos lutando pela mesma causa eurocêntrica. Preconceituosamente, a sabença é desmerecida enquanto vasos chineses são aplaudidos. Nessa lógica parnasiana, permanecemos desqualificando e julgando a língua “errada” de Riobaldos com sua sabedoria e sinceridade para aplaudirmos a língua “certa” desses Brás Cubas cheios de palavras pomposas, falsas e pensamentos vazios.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s