Mimimi

Todo mundo quer criticar alguém. Entender alguém é uma arte perdida. Em um país tão polarizado que vive entre o conservadorismo do século XIX e o emponderamento do XXI, valores são falsamente defendidos em uma fantasia de politicamente correto. Os dois lados contém exageros. Aceitemos isso! Há discursos exagerados e puramente midiáticos? Há. Há discursos minimizadores e puramente transvestidos de brincadeira? Há. Nessa guerra entre lados, a alteridade é assassinada e o ato do diálogo é perdido.

Por todos os cantos, eu vejo tribunais. Por todos os lados, eu não vejo ouvintes. O júri aqui já tem um ponto de vista e, constantemente, exige pena de morte. Em um mundo de versões, cada um escolhe a que mais lhe convém. E teima em apenas julgar o outro de um lugar muito confortável chamado plateia. Tentar compreender ou sentir pelo outro é a forma mais inteligente de não ser injusto. Há situações em que isso não é possível.

Martin Luther King disse “O que me preocupa não é a voz do maus, é o silêncio dos bons”. Não há frase que eu concorde mais do que essa. Existem situações em que a compreensão exige tomada de posição. Compreender um pensamento machista é também combatê-lo. E não há silêncio no combate. Os grandes horrores da humanidade ocorreram pela ausência de coragem e voz dos que lutavam por direitos, não pelo seu excesso deles. O experimento Milgran comprava que embora alguns achem que algo seja “maldoso”, “desumano” ou “errado”, poucos são os que terão a coragem de fazer algo sobre aquilo. Um fluxo chamado maioria dita a ordem.

Aplausos às vozes que mesmo com medo se levantam e que mesmo com medo se levantarão novamente, porque a melhor forma de combater uma injustiça é o confronto. E você, meu caro amigo, que não entende como o confronto é difícil, bem, você não sabe o significado da palavra “alteridade”. E eu não te acho um imbecil por isso, creio que seja algo que não é dom, mas prática.

Eu sou mulher. Em varias situações, eu queria não ser. Acho que se eu fosse homem, eu seria menos criticada e considerada mais inteligente. Talvez as pessoas substituiriam o “mandona” por “líder nata”. Acho que eu nunca teria sido descaradamente subjugada em intelecto pela minha aparência. Talvez, eu parecesse mais forte. Acredito que ninguém nunca teria tentado me beijar à força ou me apalpado em uma balada. Seria legal deixar de escutar que “desse jeito, você não casa”. Ou que a mulher nasceu para ser mãe. Ou sobre como a mulher é o pescoço e o homem a cabeça. Eu queria saber se os homens já se sentiram constrangidas com “gostosa” quando você está andando na rua. Ou objetificada como uma bunda. Quem me dera não ser chamada de “vagabunda” por ficar com quem eu quiser ou julgada como “puta” por falar sobre sexo. São tantas situações e só de ter começado a escrever sobre elas, eu já me sinto triste. E a mais dolorosa : no fundo, por mais inteligente, brilhante e fodona que eu vá ser ou seja, eu serei menosprezada ou preterida por ser mulher. É uma realidade que não será extinguida tão cedo. Ela dói. Não é uma sensação boa saber que eu terei que lutar contra um sistema que me atribui um valor menor por eu ser uma mulher. Se eu fosse um homem, ser presidente seria mais fácil.

Parece “mimimi”? Então, que tal usarmos aqui aquela palavra: alteridade. Colocar-se no lugar do outro. Nesse caso, no meu e dos milhões de mulheres que sentem essa dor tão entristecedora de uma cultura patriarcal e misógina. Dói mesmo e incomoda demais. E muitas de nós engolem o choro, a raiva, o incomodo e o protesto por não quererem serem chamadas de chatas, feminazis ou exageradas. Outras, por não conseguirem falar sobre isso sem chorar. Outras, por não saberem como. Sem dúvidas, o silêncio é o fluxo da maioria, por meio dele, as injustiças são consagradas.

Repito: meus aplausos aos que não se calam. E acrescento: meu pedido de tomada de posição aos que se abstém. E vou além: você que nunca ousou ter coragem de dar a cara a tapa diante de um injustiça, por favor, fique quieto antes de dizer que alguém está sendo “grosseiro” ou que “havia uma forma melhor”. Isso me irrita, porque torna a reação à dor uma lógica racional. Aos covardes que preferem ser júri do sentimento de uma mulher diante do machismo ou às mulheres que não se sentem tão incomodadas, bem, sem poetizar: parem de ser ridículos, quase a totalidade, reage por emoção e passionalidade em uma situação que cause dor.

Eu concordo com Shakespeare de que é mais fácil ganhar uma guerra com a ponta da língua do que com a ponta da espada. Em todos os assuntos, eu vejo no diálogo a saída ideal. Só que nenhum tipo de preconceito é um assunto. Há questões que não são discutíveis: machismo, racismo e homofobia são alguns desses temas. Ninguém tem direito aos posicionamentos preconceituosos. E rezo pelo dia em que todos os que tenham consciência de uma ação preconceituoso ou ofensiva, machucados ou não, se indisponham contra ela. E que errôneas posições sejam cada vez mais ridicularizadas. Para isso é necessário que paremos de criticar aqueles que são corajosos e compreender apenas os que são confrontadas. Isso encorajada a voz dos erros e desencoraja a voz dos direitos.

Vozes que podem, após um confronto inicial, dialogar em torno de perdão e compreensão. Seria um equívoco -de um também fluxo de maioria – não entender a construção cultural e inconsciente do machismo na sociedade. Uma fala ou uma ação machista não tornam alguém uma releitura do Nils Bjurman. Ou vocês acham mesmo que eu teria problemas em admitir que mesmo dolorida da questão eu emito pensamentos machista até sem querer? Ninguém é alheio à cultura que foi criado. No entanto, não devemos nos apoiar nisso para legitimar um relativismo absoluto ou posturas que são, conscientemente, inferiorizantes. Como indivíduos temos o dever de fazermos essa autocrítica e buscarmos as posturas não preconceituosas.

Um equívoco maior do que não entender o papel da cultura na construção dos preconceitos, seria de calar-se diante dele ou não combatê-lo. Maior que ambos, na minha opinião, é da plateia tornar-se júri e condenar que a machucada, a a corajosa e heroína merece críticas e não meus mais sinceros agradecimentos por ter tido a ousadia de falar enquanto todos os demais apenas olhavam.

E caso você queira outra voz, deixo aqui um algumas falas de Malala (e a minha visão sobre como devemos lidar com o machismo): Acredito no empoderamento de meninas locais. Quando empoderamos meninas, elas trazem a mudança. Eu era uma menina, levantei minha voz e pude mudar o mundo. Há outras meninas por aí. Se lhes dermos apoio, elas poderão levantar a voz e mudar o mundo. A misoginia é um velho complexo de superioridade. E encontram justificativas. A justificativa da cultura, da religião e procuram meios de apoiar isso.

O machismo é uma ideologia e temos que lutar contra ela, seja ela das montanhas do Paquistão ou de grandes cidades. Nós temos que desafiar. Mas nós estamos desafiando isso(…) A melhor vingança é o perdão(…) As pessoas que me atacaram, eu as perdoei, porque esse é a minha melhor vingança. Precisamos que todas as meninas estejam na escola, mas não podemos parar aí. Quem está estudando não pode ter medo, ser intimidada, desmotivada ou desmoralizada. Sei que há muita insatisfação, mas não esqueçam nunca que a voz de vocês tem poder enorme de provocar mudanças. Uma mensagem de paz tem muito mais força do que uma de raiva.

Para entender mais sobre alteridade.

Para saber mais ainda sobre alteridade.

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