Ladinos nem sempre saem ilesos

Em Otelo, Iago jurava dizer apenas verdades, cantava sua honra e apontava a falsidade nós outros, porém, Iago tramava e enganava a todos. Em Hamlet, Polônio articulava para que ele nunca fosse lesado pela verdade e diz ao filho “se fiel a ti mesmo”. Esses são os dois vilões mais consagrados de Shakespeare, ambos tinham, em seu interior, um profundo desprezo pela verdade, pensavam apenas em seus interesses e acabaram assassinados por aqueles que tentaram ludibriar com suas palavras floridas. Esses dois dependiam muito das visões que os outros tinham deles, eram personagens de personagens e lutavam para não serem descobertos.

O Instagram e a vida moderna são um mar de Polônios e Iagos. Lá, hoje, eu li um texto muito bem escrito, bem fundamentado da gramática até a análise. Era um texto completo com belas referências. Embora o autor seja um amigo e eu concorde com boa parte do discurso por ele defendido, eu retomo Machado e vejo nele “Uma pontinha de Iago” e acrescento “Um metro de Polônio”. Contudo, o texto levou-me a uma reflexão: até que ponto o aparentar ser deve ser maior do que a pessoa que de fato somos?

Particularmente, eu não responderia outro tempo que não “nunca”. E isso não é sobre ser esse ou aquele, certos ou errados, mas é sobre perdida ousadia de ser si mesmo. Clarice Lispector, autora que eu acredito ter abordado bem a individualidade do ser versus sua exterioridade, expõe, em um texto chamado “Se eu fosse eu”, as nuances de como viver segundo quem realmente somos seria edificante. Vejam, aqui, meu desejo seria citar alguns trechos, mas estou desiludida dos recortes de obras que se quer abrimos, mas pretendemos aparentar conhecer.

Veja bem, todos aparentamos algo que, por muitas vezes, não somos, maneiras que não agimos e valores os quais não compartilhamos. Não estou me eximindo disso, mas mantenho, sinceramente, que devemos buscar o “ímpeto louvável” de sermos mais do que postagens de Instagram, uma genuína vontade de sermos pessoas melhores e, com orgulho, essa é uma prática diária em minha vida.

Tenho um apresso magistral pela verdade e pela sinceridade. Infelizmente, na maioria das vezes, os custos são confusos e problemáticos, mas são reais. E quando vou dormir, bem, durmo com a consciência que “eu sou eu”. O resultado disso é que sou uma pessoa polêmica. Se você me conhece, vai concordar com isso. Você pode me achar chata, inconveniente, arrogante, babaca, mas você sabe que eu não sou falsa. Eu não irei fingir que gosto de você ou não dar minha verdadeira opinião sobre algo. Tampouco, eu me esconderei das consequências.

Meus caros, sou uma fiel súdita de Nietzsche(que intitulava-se de dinamite, não de carta de retratação). Uma apaixonada pelo Príncipe Hamlet. Em mim, não há uma pontinha de Iago. Não vim ao mundo para ser Brás Cubas. Não irei chegar ao fim para atar as pontas da vida e me justificar. Dessa forma, usando um dos meus trechos preferidos de Oscar Wilde, cito: O objetivo da vida é o nosso desenvolvimento pessoal. Compreender perfeitamente a nossa natureza. Hoje as pessoas temem a si próprias.

Meu querido, essas palavras são um conselho e uma crítica. O dia pelo qual você roga é o dia em que a plateia lançará aplausos no lugar de tomates. Pelo que vi nos comentários, este dia pode ser hoje. Aproveite esse prazer, mas se lembre que ele é momentâneo e saiba que aplaudir a si mesmo é muito mais poderoso, afinal, esses aplausos são para um você que ainda não parece existir. Por fim, meu caro e querido amigo, se és tão amante da verdade, ousa tentar vivê-la!

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