Haute Couture e fast fashion

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Hoje, fui ao shopping. Olhei todas as belas e sedutoras vitrines. Experimentei o que mais me agradou. Comprei algumas peças. As levei comigo, tal como as da última semana. Aquelas lá, eu já enjoei e anunciei em um site de desapegos. O destino dessas aqui provavelmente será o mesmo. Passeando pelos corredores, olhando todos aqueles novos modelos e possibilidades, a curiosidade é a mãe do desejo, o hábito do consumo é o seu pai. Uma pós-moderna família que matou o artesanal. Ninguém mais parece frequentar um alfaiate. Os detalhes de uma roupa construída aos poucos, moldada em seu corpo e para você. A gostosa sutileza poética daquilo que exclusivamente existe para ti. Uma obra de arte que veste teu ser. Ela exige mais trabalho, não é uma ida ao shopping, são ilimitadas idas ao ateliê, é dar-se como molde e parte, exige disposição e o risco de nem sempre a peça ficar da forma como desejas. Porém, sua beleza e caimento sempre serão os melhores possíveis. Claro, no decorrer do processo, o alfaiate sempre esquece de nossa fragilidade e, hora ou outra, nos alfineta, até nos faz sangrar. Ai! Eu odeio alfinetes, mas se não fossem os alfinetes, seria possível ter essa única, rara e bela peça que, tão graciosamente, se encaixa em meu corpo, me adorna e enaltece? Creio que não.

Claro, há benefícios simplórios que nos convidam ao consumo em shopping. Não há riscos, você só entra, escolhe o que quer provar, testa, gostou? Vá até o balcão e utilize seu cartão, pague e vá embora! Não quer mais? Tudo bem, livre-se disso! Algumas vezes, você compra e até se esquece que o tem e nunca usa. Agora, percebeste que ele não cai tão bem em ti. Ontem, em uma festa, uma menina usava o mesmo vestido que eu. Ora! Não gostei disso e, hoje, já fui ao shopping buscando um outro. Mas, agora, eu vejo que a sensação desgostosa daquele momento me recorda o quanto eu amo o artesanal, o construído, as peças que são bem costuradas por fora e por dentro. Aquelas que antes eram apenas um corte de um tecido qualquer, mas que se fizeram especiais ao serem trabalhadas. Por mais que elas sejam mais difíceis e caras, eles valem mais a pena. Entre ter cem peças de um fast fashion, eu prefiro um haute coutere esculpido em mim e para mim.

Há um haute couture em meu guarda roupa. Ele é belíssimo, como toda sinceridade, nunca vi um vestido mais belo. Descobri o alfaiate que o fez de forma casual, nem procurava. Essa peça foi lentamente cortada de um tecido árabe. Os detalhes foram colocados aos poucos. No começo, eu esperava algo mais simples, nunca acreditaria que ele se transformaria em algo tão único e tão especial. Foram várias alfinetadas, vários dias gastos, mas não posso reclamar, afinal, ele sempre me deixou deslumbrante. Algumas vezes, tive que fazer ajustes. Algumas vezes, eu quis não adorar tanto aquele vestido. É uma obra de primazia divina, ele me faz sentir aquecida em noites de frio e leve em tardes de verão, magia. Só que, há algum tempo, estava me apertando demais, parecia sufocar-me, em uma tentativa de respirar melhor, eu o rasguei. Entenda, doeu muito ter que fazer isso, mas foi necessário. Mesmo com o rasgo, vi que seria impossível descarta-ló. Abri o meu armário, coloquei-o lá e fechei. Não sei se posso consertar o vestido, ele estava me machucando. Do que adiantaria costurar o rasgo se ele continuasse me trazendo dor? Por mais belo que ele seja, talvez eu não seja mais capaz de vesti-ló. O problema de usar algo assim é que você se acostuma à alta costura, então, todas as peças perdem em brilho.

Percebo, sem a liquidez de minha época, eu sinto a nostalgia de querer viver no século XIX, eu sinto falta de quando todos os vestidos de baile eram feitos como obras de arte. A questão é: onde eu usaria um daqueles belos vestidos? Soam, hoje, como fantasias de um tempo que jamais voltaria, porém, meu ideal ainda permeia a Inglaterra Vitoriana ou, no máximo, a Belle Epoque francesa. Confesso, talvez, eu nem sempre me vista de acordo com meu tempo, destoando dos demais. Devo então me adequar mais ao dresscode da atualidade que troca o guarda roupa a cada nova estação?

Compro um vestido novo, em uma boa loja, não foi feito para mim, mas me veste bem. É leve e a costura não me incomoda. Gosto de sentir seu tecido em minha pele. Não causa aperto, é bonito e não desperta o medo de desgastar. Como dizer que não há prazer em usar uma roupa casual? Será devo comprar mais alguns desse modelo? Ou devo escolher buscar um ateliê com suas complicações e recompensas? Não sei, estou confusa. Li um conceituado polonês, ele é crítico de moda, e contesta muito o consumo desenfreado que tudo descarta e visa resolver. Ele nos aconselha que a primeira e última moda é usar o que é alta costura.

Infelizmente, no século XXI, os ateliês são raros e os shoppings são comuns. Caminho pelas ruas buscando essa raridade, não encontro nenhum, se eu encontrasse, mesmo com medo dos alfinetes, eu entraria. Pediria o mais deslumbrante dos vestidos, ele seria tão especial que só de imaginar em tê-lo, eu sorrio. Porém, enquanto não o encontro, é irresistível ceder às peças da vitrine do hábito desse tempo em que eu vivo, mas que não vive em mim.

Nesse conflito, eu me pergunto: com que tipo de roupa eu vou?

Haute Couture: alta costura, refere-se à criação em escala artesanal de modelos exclusivos feitos sob medida

Fast fashion: moda rápida, significa um padrão de produção e consumo no qual os produtos são fabricados, consumidos e descartados – literalmente – rápido

Imagem em capa: o quadro “Les Amants”, de Rene Magritte.

O tal polonês que é crítico de Moda e sua VOGUE:

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