Marielle está presente, por quê? A maré de amor não morre.

Negra, mulher, homoafetiva, mãe solteira e nascida em uma favela carioca, a Maré. Pode parecer clichê começar esse texto assim, mas não seria justo começá-lo de outra forma, afinal, tal descrição prova o quão guerreira Marielle Franco precisou ser. Ela é síntese de todas as minorias que sofrem preconceito e marginalização nesse país, uma que, na história nacional, não teve voz. Seu caixão é palco da luta que travou por toda vida. Eis o “x” da importância simbólica dessa morte: ao matá-la, tentaram, mais uma vez, calar uma voz de luta por direitos e sufocar o clamor por igualdade.

As ridículas tentativas de normatizar ou transformar a morte da socióloga em estatística buscam endossar aqueles que pagaram pela execução e puxam o gatilho da ausência de alteridade. Se você, meu amigo, está agindo como se esse assassinato fosse qualquer assassinato, há duas opções: ingenuidade ou você foi picado pelo mosquito que mais prejudica o país – o Aedes ainda não conseguiu alçar os níveis de calamidade necessários para ultrapassá-lo-: o MBL.

A moléstia causada, felizmente, tem cura, ainda que em muitos casos, o doente prefira permanecer sem tratamento. É o caso do Deputado Alberto Fraga(DEM), que iniciou o boato que Marielle Franco havia sido casada com o traficante MVP. As desculpas ainda não vieram, nem a coerência. Essas constantes e mentirosas informações que buscam deslegitimar a luta de uma guerreira soam desesperadas, mas têm ganhado amplitude nos discursos de alguns, que tal como os executores, querem que as 45600 vozes que Marielle sonorizava sejam caladas. Uma triste notícia para a nossa democracia.

Uma morte política exige uma leitura política. As razões de matarem Marielle são as batalhas travadas pela vereadora, lutas por um país melhor, onde os Direitos Humanos fossem respeitados como direitos de todos e não como luxos de alguns; onde a igualdade entre os gêneros fosse uma realidade; um lugar em que o racismo fosse duramente combatido; onde os homoafetivos não sofressem tanto com a homofobia e os transsexuais não fossem marginalizados. Marielle lutava por um Brasil que eu acredito, um Brasil que, hoje, poderia parecer ainda mais distante.

Aos meu olhos, esse Brasil nunca foi tão próximo. A execução de Marielle fez com que sua voz ecoasse nos amplificadores do mundo. Se queriam calá-la, falharam imensamente! O velório, as manifestações pelo mundo e a repercussão deixam esse fato muito evidente: Marielle de guerreira torna-se-a bandeira. Como seus algozes não viram que isso ocorreria? Simples, a mobilização ocorreu pela maravilhosa postura de respeito, solidariedade e amparo que Marielle teve em vida, os assassinos desconhecem esse genuíno poder. Hoje, como mártir, a voz da vereadora é a voz de um Brasil que, tomado de horror e admiração, pretende mantê-la viva como símbolo.

A voz de Marielle ecoa no grito daqueles que têm, independentemente do posicionamento ideológico, a ideia de um Brasil justo, igual, digno e democrático. Um Brasil em que a polícia mate menos e morra menos, um Brasil sem milícias e que combata efetivamente o tráfico de drogas; um Brasil que não seja racista, machista e homofóbico. O Brasil que eu me orgulharia ainda não venceu, mas eu me comprometo a lutar por ele. Acredito que muitos outros pretendam o mesmo. Nesse aspecto, a esperança permanece viva, renovada e forte.

Diante da triste notícia da execução de Marielle Franco, lembramos da importância de nos posicionarmos pela defesa das minorias. Isso me recorda uma frase atribuída ao Pastor Martin Luther King(também executado) : “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. É uma alegre notícia quando os bons não se calam, mas é uma eterna tristeza quando tentam calá-los. Nós sabemos que Marielle conhecia os riscos de se opor à égide tirânica de um país dominado por poderes paralelos e covardes. Isso não a amedrontou, tal como um trecho de uma importante canção que parece feita para nossa heroína:

Se o penhor dessa igualdade

Conseguimos conquistar com braço forte

Em teu seio, ó liberdade

Desafia o nosso peito a própria morte!

Mas, se ergues da justiça a clava forte

Verás que um filho teu não foge à luta

Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada

Entre outras mil

És tu, Brasil

Ó pátria amada!

Observação: Esse texto foi escrito ao som da música “why? The king of love is dead”. Essa musica é homenagem de Nina Simone ao Pastor Martin Luther King.

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